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Psicanálise
e violência urbana
Francisco Paes Barreto1
paes.barreto@globo.com
Resumo: O artigo introduz
alguns tópicos da análise que Freud faz da cultura em O
futuro de uma ilusão e em O mal-estar na civilização
e compara sucintamente a subjetividade da época de Freud com a
contemporânea. Finalizando, traz algumas reflexões sobre
a violência urbana no Brasil.
Palavras-chave: psicanálise; cultura; civilização;
subjetividade contemporânea; violência urbana.
Abstract: This article introduces topics of Freud’s
analysis of the culture in The future of an illusion and in Civilization
and its discontents and it briefly compares the subjectivity of Freud’s
time with the contemporary. Concluding it brings some reflections on the
urban violence in Brazil. words: psychoanalysis;
culture; civilization; contemporary subjectivity; urban violence.
O que se convencionou chamar de violência
urbana é algo superdeterminado, ou seja, que remete a numerosos fatores
determinantes. Com efeito, tem sido associada à concentração de renda,
ao desemprego, às migrações para os grandes centros, ao narcotráfico,
à corrupção nos poderes constituídos, à influência da mídia, ao modo de
ação da polícia, etc., sem que nenhum deles possa, por si só, explicar
o fenômeno. Quando fui convidado a falar neste evento, perguntei a mim
mesmo: Que contribuição a psicanálise pode dar? O que ela pode acrescentar
a essa reflexão?
A psicanálise tem o que dizer pelo simples fato de Freud ter sido um eminente
pensador da cultura. Acrescente-se a isso a grave advertência de Lacan:
“Que antes renuncie a isso (à prática psicanalítica), portanto, quem não
conseguir alcançar em seu horizonte a subjetividade de sua época”.
2Pretendo,
por conseguinte, trazer alguns tópicos da análise que Freud faz da cultura
e em seguida comparar a subjetividade de nossa época com aquela em que
ele viveu.
Freud e a cultura
Desprezando qualquer separação entre o conceito de cultura e o de civilização,
Freud afirma que ela designa a soma das produções e instituições que distinguem
nossa vida da de nossos antecessores animais e que serve a dois fins:
dominar a Natureza, extraindo dela os bens para satisfazer as necessidades
humanas, e regular as relações dos homens entre si, especialmente no que
se refere à distribuição dos bens conseguidos. Ao longo da história, o
objetivo de dominar a Natureza tem alcançado êxitos inegáveis, mas à custa
de elevado preço. A questão é que a cultura repousa na imposição coercitiva
do trabalho e na renúncia à satisfação das pulsões (sexuais e destrutivas),
sacrifícios que cada indivíduo experimenta como um peso intolerável, o
que o torna, virtualmente, um inimigo da civilização. A imposição é inevitável,
devido a duas características amplamente difundidas entre os homens: a
falta de amor ao trabalho e a ineficácia dos argumentos contra as paixões.
Indolentes e pouco lúcidas, as massas não aceitam espontaneamente os esforços
e privações imprescindíveis à perduração da cultura. Justifica-se, assim,
a impressão de que a civilização é algo que foi imposto a uma maioria
contrária a ela por uma minoria que soube se apoderar dos meios de poder
e coerção.3
Além das restrições dirigidas a todos os indivíduos, existem outras, que
somente atingem determinadas classes sociais. Está aí um novo foco de
revolta: quando a satisfação de certo número de seus participantes tem
como premissa a opressão da maioria — e assim ocorre em todas as civilizações
atuais — é compreensível que os oprimidos desenvolvam intensa hostilidade
contra a civilização que eles mesmos mantêm com seu trabalho, mas de cujos
bens não desfrutam senão em pequena proporção. É uma hostilidade tão patente
que tem impedido os observadores de ver aquela que veladamente existe
também nas classes mais favorecidas. Não custa dizer que uma cultura que
deixa insatisfeito um número tão considerável de participantes, induzindo-os
à rebelião, não pode durar muito tempo, nem tampouco o merece.4
Em que pese o tributo que se paga à civilização, aspirar à sua supressão
seria, no entanto, prova de profunda ingratidão e acentuada miopia. Sem
ela, o que resta é a lei do mais forte, em detrimento do Direito. O primeiro
requisito cultural é o da justiça, a segurança de que a ordem jurídica
não será violada a favor de um indivíduo.5
Para Freud, em suma, todos os homens carregam tendências destrutivas —
anti-sociais e anti-culturais — de tal modo que, para a psicanálise, o
problema a ser esclarecido é como chegam a se tornar sociais. Formulando
em outras palavras, trata-se de saber que defesas a civilização utiliza,
ou seja, de que meios de coerção ela dispõe e que meios procuram reconciliá-la
com seus componentes, compensando-lhes seus sacrifícios.
Uma das mais preciosas conquistas da cultura foi a gradual transformação
da coerção por agentes externos em coerção por um agente interno, o supereu.
Ao longo da história da humanidade, e de cada um em particular, os mandamentos
culturais — inicialmente impostos como exigências de outros — tornam-se
interiorizados, convertendo-se em exigências de uma instância psíquica
do próprio sujeito. O supereu é o representante da lei paterna, que sela
a renúncia à satisfação pulsional, que limita o gozo. Como autoridade
interior, onipresente, não faz diferença entre desejo e agressividade
simplesmente intencionados e efetivamente realizados. Tanto a intenção
como o ato são responsáveis por sentimento de culpa, vivido como mal-estar
não explicado. A perda de felicidade por aumento da culpabilidade é o
ônus da cultura.6
Um segundo e poderoso fator, um dos que com maior êxito neutraliza a hostilidade
adversa, é a criação de ideais culturais. Todos os elementos de uma determinada
cultura ou unidade cultural são beneficiados. Mesmo os mais oprimidos
são compensados pela satisfação narcísica de poder depreciar os que não
pertencem à sua cultura. Caio é um mísero plebeu sufocado pelos tributos,
mas também é um romano, e participa da grande tarefa de dominar outras
nações e impor-lhes leis. Os oprimidos podem identificar-se com a classe
que os oprime e explora, podem sentir-se efetivamente ligados aos seus
opressores, e apesar de sua hostilidade, ver em seus senhores seu ideal.
É este o motivo pelo qual certas civilizações têm-se conservado por tanto
tempo, malgrado a justificada revolta de grandes massas de homens.7
Defronta-se, a esta altura, com um terceiro fator, que constitui o elemento
mais importante do inventário psíquico de uma civilização: suas representações
religiosas. Trata-se de um acervo de ilusões, cuja finalidade é proteger
os homens contra os perigos da natureza e do destino, e contra os danos
da própria vida em sociedade, conjurando-lhes o insuportável sentimento
de impotência e desamparo — legado da infância individual e da infância
da espécie humana. Assim se identifica Deus a um pai todo-poderoso e onipresente.
Historicamente, observa-se que no início os deuses colaboravam com os
homens no que se refere ao controle das forças da natureza. Houve, com
o tempo, um deslocamento da ênfase. A principal tarefa divina passou a
ser o nivelamento dos males da civilização; o cuidado com os padecimentos
que os homens infligem uns aos outros e a fiscalização do cumprimento
dos preceitos culturais, aos quais os homens obedecem de modo tão imperfeito.
Tais preceitos foram apresentados como de autoria divina e obtidos graças
à revelação.
Para Freud, a religião ajuda o homem, mas do mesmo modo que nele faz a
neurose. Há mesmo grande semelhança entre elas. Ambas derivam do complexo
de Édipo, do relacionamento com o pai, e o cabedal de suas idéias inclui
não apenas realizações disfarçadas de desejos como também importantes
reminiscências históricas. É como se a neurose fosse uma religião individual,
ou como se a religião fosse uma neurose obsessiva universal. A civilização
teria dado um grande passo se, em vez de encarar os preceitos culturais
como mandamentos divinos, reconhecesse honestamente sua origem puramente
humana. Junto com a pretensa santidade, perderiam também sua rigidez e
imutabilidade. No lugar de sua abolição, seria procurado o aperfeiçoamento;
um grande avanço no caminho que leva à reconciliação com o fardo da cultura.8
A subjetividade de nossa época
Em que a cultura contemporânea é diferente daquela em que Freud viveu?
Um primeiro aspecto a ser ressaltado é o declínio ou mesmo a dissolução
da moral sexual civilizada. Está diante de nossos olhos a decadência da
interdição, isto é, a permissividade ou a tolerância social no que concerne
à satisfação das pulsões. A emancipação das mulheres e a liberação dos
costumes entraram tão decisivamente no cotidiano de nossas vidas, que
fizeram mergulhar no passado remoto as descrições freudianas sobre o recalque
da sexualidade. Em sua época, a simples afirmação da existência da sexualidade
infantil causava escândalo. Jacques-Alain Miller propõe, de forma divertida,
que, se aquela foi denominada era vitoriana, a nossa poderia ser
a era clintoniana, e que, se a norma social da era freudiana foi
a neurose obsessiva, a da nossa poderia ser a perversão.9
Um segundo aspecto por demais evidente é a queda dos ideais culturais.
Época de declínio do pai, do viril, dos valores, das hierarquias, das
identificações verticais, de crise do saber, dos sistemas de idéias. No
mundo globalizado, são mortalmente golpeadas as tradições que passam de
geração para geração; os ideais que cingem e concernem povos, nações ou
regiões; os costumes ou ritos que caracterizam seitas ou grupos. Caminha-se
mais e mais para o standard, e as carências que eram aplacadas
pelos ideais culturais, passam a ser sedadas pelo gozo consumista. O consumo
é a quinta-essência do mundo globalizado. Um bom paradigma seria a Coca-Cola,
ou o Mc Donald’s. Gozo fácil, democratizado, universalizado.
Ora, se a interdição cede lugar à permissão e se o ideal cede lugar ao
gozo, tudo muda, inclusive a clínica, que definitivamente não é mais a
de Freud. Casos como os clássicos que ele descreveu, mostrando neuróticos
com a sexualidade recalcada e sintomas de satisfação substitutiva, ou
então com a satisfação pulsional em conflito com os ideais, tornaram-se
minoria. Se, naquela época, importante era o supereu paterno, limitador
do gozo, nos dias atuais o que prevalece é o supereu materno, já entrevisto
por Freud, e que é exortação ao gozo. Ou seja, o que era proibido tornou-se
obrigatório. A clínica de hoje, portanto, não é mais a do recalque; é
a clínica do gozo, da passagem ao ato. Os novos sintomas são as toxicomanias,
a delinqüência, a anorexia, a bulimia, a depressão, o pânico, etc.
Violência urbana
Mas, o que isso tem a ver com nosso tema, a violência urbana, mais precisamente
no Brasil?
O leitor atento já deve ter feito antecipações. O supereu paterno é uma
instância que traz mal-estar para o sujeito, mas que contribui para reforçar
o cimento da cultura. Os ideais culturais, da mesma forma, têm poderosa
influência aglutinadora. Se entram em declínio, ou mesmo em queda livre,
é preciso que outros meios sejam mobilizados para a tarefa de conciliar
o homem com a cultura. Com o enfraquecimento da interdição e com a liberação
dos costumes, não apenas as pulsões sexuais são franqueadas, como também,
em boa parte, as destrutivas. Reduz-se a insatisfação, mas fica fortalecida
a tendência anti-social. Que recursos a civilização utiliza como compensação?
Não há dúvida de que a principal resposta é o gozo consumista. O problema
é que, como foi visto, as disparidades sociais podem convertê-lo em fator
de dispersão.
Quando Freud propõe que os mandamentos culturais sejam reconhecidos como
de origem humana, para torná-los passíveis de flexibilização e aprimoramento,
não há dúvida de que atribui grande importância à ordem jurídica, que
teria assim papel fundamental na conciliação do sujeito com a cultura.
O fundador da psicanálise descortina a perspectiva, mas não se encanta
com ela. Mostra-se cauteloso diante do grande obstáculo à civilização,
que é a tendência constitucional dos homens a agredir-se mutuamente. O
cristianismo tenta mascarar essa dura constatação com o mandamento “Amarás
a teu próximo como a ti mesmo”, que tanto tem de ingênuo como de irrealizável.
Outro dado inquietante é a verificação de que a humanidade progrediu tanto
no domínio das forças elementares que se tornou capaz de destruir a si
própria e ao seu ambiente natural.
A partir do que foi exposto, uma leitura do que ocorre no Brasil só pode
trazer profundo desalento e fundamentada preocupação. A freqüente indignação
com a brutal desigualdade na distribuição dos bens produzidos encontra
eco também no texto freudiano. Com base na leitura psicanalítica, é possível
relevar um segundo aspecto, que não tem sido suficientemente considerado:
não somos apenas vítimas, mas também autores da violência urbana.
Darei indicações para esclarecer este ponto de vista. Qualquer que seja
a abordagem da violência urbana no Brasil, constitui erro grosseiro focalizar
sua origem nas favelas e nos bairros pobres da periferia. O que está ali
é apenas o lado visível da questão. Mas a ruptura do tecido social é uma
só, esteja onde estiver. Quem acusa os narcotraficantes, não deve esquecer
que quem compra as drogas para sustentá-los são a classe média e a mais
favorecida.10
Quem acusa os bandidos que roubam cargas, não deve esquecer os empresários
que fazem a receptação. A responsabilidade pela violência também está
na conivência da polícia com o crime, no pagamento de propinas por empresários
e no seu recebimento por funcionários públicos, na impunidade de classe
que vigora no Brasil. É fundamental considerar, na geração da violência,
a importância crucial da corrupção nos poderes constituídos, ou seja,
no Executivo, no Legislativo e no Judiciário. Com efeito, como exigir
que os oprimidos cumpram as leis, se aqueles que as criam e aqueles que
as aplicam não as cumprem? Por fim, mas não menos preocupante, a complacência
generalizada para com a corrupção e a violência, vistas como inevitáveis
e banais. Por sinal, fomos nós que elegemos os políticos que aí estão.
Em síntese, a violência urbana é também a nossa; além de vítimas, somos
cúmplices dela.
1Membro
da Escola Brasileira de Psicanálise – EBP.
2Lacan,
J. (1998) Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise
(p. 322). In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
3Freud,
S. (1968) El porvenir de una ilusión (pp. 73-74). In: Obras Completas,
Vol. II. Madrid: Editorial Biblioteca Nueva.
4Idem,
ibidem, p. 77.
5Freud,
S. (1968) El malestar en la cultura (p. 25). In: Obras Completas, Vol.
III. Madrid: Editorial Biblioteca Nueva.
6Idem,
ibidem, p. 55.
7Freud,
S. (1968) El porvenir de uma ilusión. Op. cit., p. 77.
8Idem,
ibidem, p. 92.
9Miller,
J.-A. O sintoma e o cometa (p. 10). In: Opção Lacaniana,
nº 19. São Paulo: Edições Eólia, 5-13,
agosto 1997.
10Campos,
S. O consumo da violência: efeitos da pós-modernidade (p.
95). In: Curinga, nº 19. Belo Horizonte: Escola Brasileira de Psicanálise
– MG, nov. 2003.
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